ACRO Entrevista: Pablo Castello Branco

Quando falamos em acrobacia, sempre nos vêm à mente um céu azul e um avião rodopiando suavemente lá no alto, em meio às nuvens, certo? Bom, pelo menos é o que eu penso em primeiro lugar!

Agora imagine a situação: voar baixo, rápido, entre obstáculos sobre a terra ou água, fazer curvas fechadas e cheias de G. Não parece muito acrobacia, à primeira vista, mas requer um extremo conhecimento e habilidade acrobática. Estou falando da Red Bull Air Race, a corrida aérea que conta com os pilotos de elite da acrobacia mundial!

Para introduzirmos uma nova categoria de matérias em nosso site, a primeira da ACRO Entrevista do ano conta com a ilustre participação de Pablo Castello Branco, membro da equipe de Mike Goulian, a Team 99.

Pablo HD

Conheci Pablo em 2017 na ICAS Convention em Las Vegas e conversamos bastante sobre acrobacia no Brasil e nos EUA. Pablo é um dos responsáveis pelo sucesso da Equipe Team 99 na RBAR e nos contou um pouco de sua história na aviação e no time de Goulian.

Para vocês então, a entrevista com Pablo:

Murilo Rovina: Pablo, como você ingressou na aviação?

Pablo Castello Branco: Meu pai nasceu em Santos Dumont, MG então já nasci com raízes na aviação. Meu avô e a família do meu pai sempre esteve envolvida com o Museu de Cabangu, que é o local onde nasceu Alberto Santos Dumont e mantém um acerco riquíssimo do pai da aviação. Meu pai sempre quis voar, mas acabou seguindo outros caminhos e tornou-se Jornalista, e era também um excelente fotógrafo. Eu nunca cogitei fazer nada de diferente com a minha vida, e meu pai sempre me apoiou muito. Quando moleque construíamos e voávamos aeromodelos juntos e pra ser bem sincero, eu nem sei quando o sonho de voar começou; eu acho que já nasci com o vírus! Comecei voando planadores no Aeroclube do Planalto Central em Formosa, GO e de lá nunca mais parei. Fiz meu primeiro solo em 2004, pouco antes do meu pai falecer. Nunca consegui levar meu velho pra um voozinho como tanto planejada, mas ele chegou a me ver voando planadores sozinho!

MR: Quando e como foi seu contato com a acrobacia?

PCB: Através do Eduardo Fabiano, em Luziânia, GO. Muita gente que voa acrobacia hoje lembra dele! Aeromodelista ávido, eu já era super entusiasmado com acrobacias. Conhecia os aviões, os pilotos… Ao invés de colecionar álbum de figurinhas do campeonato Brasileiro eu gostava de ir na internet e imprimir fotos dos aviões do Mike Goulian, Matt Chapman, Patty Wagstaff, Sean Tucker, David Martin, Kirby Chambliss. Um dia, ainda bem antes de começar a voar, eu conheci o Eduardo enquanto ele treinava no seu Christen Eagle II. Como todo bom moleque curioso, fui até o hangar dele e pedi pra ele me mostrar o avião. Com o tempo nos tornamos muito amigos e eu participei com ele de vários shows aéreos (nunca vou me esquecer dos 50 anos do EDA!). Eu o ajudava nos treinos, criticando as manobras do solo e em troca ele me dava aulas de voo no seu Piper Cub. Na época eu trabalhava com TI, pra ajudar a pagar minhas horas de voo, então também construí o website, fazia vídeos e o que mais ele precisasse pra ajudá-lo na sua carreira na acrobacia aérea. Aprendi muito com ele, lições que carrego comigo hoje e sempre.

MR: Você comentou que voou na ACRO quando estava no Brasil. Quais aeronaves pilotou e quais recordações leva consigo desta época?

PCB: Eu fiz um vôo em um dos Super Decathlon’s em São José dos Campos. Minha memória me falha, mas se não me engano em torno de 2003. Também não lembro se foi o TZV ou o KDZ, mas lembro que foi MUITO especial! Também não lembro quem foi o instrutor. Tô ficando velho!!

MR: O que te motivou a ir para os EUA?

PCB: Muitas coisas! Eu passei quase 5 anos voando aqui profissionalmente, em um Citation Mustang que trabalhava pra uma família de Brasília. Família em primeiro lugar, mas também o acesso à aviação que se tem aqui estava no topo dessa lista. A liberdade que se tem na aviação geral Norte Americana não se encontra em lugar nenhum do mundo. Voar aqui é maravilhoso.

MR: Como conheceu Mike Goulian e entrou para a Goulian Aerosports? Conte-nos como é a experiência de fazer parte do Team 99 da Red Bull Air Race.

PCB: Conheci o Michael em um evento da AOPA em 2011 que eu visitei porquê estava um pernoite longo de uma das minhas viagens a trabalho em New Hampshire. Uma história super engraçada, porquê eu comprei ingressos caros pra um jantar beneficente que eu imaginava sendo um mega-evento com um banquete onde essas celebridades que estavam listadas no convite estariam em um palco, contando histórias para os convidados. Na verdade era um jantar super pequeno, pra mais ou menos 30 pessoas. E eu estava MUITO mal vestido para a ocasião, e quase dei meia-volta! Acabei sendo apresentado para o Michael, e como ambos gostamos muito de Fórmula 1, acabamos sentando juntos para o jantar. Surreal! Eu estava ali jantando com um dos meus ídolos de infância e a sua família.

O convite para entrar no time veio alguns anos depois em 2014, quando ele comprou o Edge 540 que temos hoje e iniciou o processo de reconstruir o time após o retorno da Red Bull Air Race. Uma oficina na Carolina do Norte foi contratada pra fazer as primeiras modificações de corrida no avião, oficina essa cujo dono era amigo meu também. Meu Pitts S-1S foi construído pela mesma pessoa! Coincidência feliz, durante diálogos sobre candidatos para o time meu nome acabou sendo mencionado e o Michael se lembrou daquele jantar vários anos atrás.

Comecei como Team Coordinator – responsável pela logística de viagens e da organização do time durante e entre as corridas. Hoje cresci para Team Manager/Race Strategist e trabalho muito próximo ao Michael nas decisões comerciais do time, e também cuido de praticamente tudo relacionado à performance; projeto, implantação e teste dos projetos no avião, preparação e estratégia de corrida. Evoluímos bastante desde 2014 e hoje somos um time de 2 mecânicos, 4 engenheiros (3 deles são Mineiros!), 2 administrativos, eu e o Michael. Começamos essa jornada na última posição do ranking, até ano passado quando ganhamos 2 corridas, e terminamos em 3º lugar geral competindo pelo título até o último round do ano em Fort Worth no Texas.

É difícil descrever a experiência! Pra mim, um moleque de Brasília que aprendeu a voar no interior do Goiás, é completamente surreal. Fazer parte de uma equipe na Red Bull Air Race é muito mais do que eu fui capaz de sonhar no começo da minha carreira, e algo que tenho muito orgulho. Trabalhar com um dos meus ídolos de infância também! Nunca aprendi TANTO sobre aviões e o que é necessário pra voá-los eficientemente como aprendi agora. Mas ainda mais importante, nunca aprendi TANTO sobre o ser humano no controle, e como desempenhar sob tamanha pressão. Fascinante!

MR: Você gostaria de ser competidor da RBAR também?

PCB: Um sonho é um sonho! Se você colocar um prazo em um sonho, rapidamente ele vira pesadelo. O nível em que esses aviadores voam é incrível. Muito mais do que as pessoas imaginam! Até mesmo quem voa acrobacia em alto nível hoje não sabe o quanto é difícil voar, e ser rápido, na Red Bull Air Race.

Eu estou curtindo a jornada! Cada passo na minha carreira na acrobacia aérea é fenomenal, e se um dia eu tiver a oportunidade de correr na Red Bull Air Race, é claro que eu diria sim.

MR: Como é a sua carreira acrobática nos EUA? Quais aeronaves voa e já voou? Como são os pilotos americanos em relação aos novos praticantes da modalidade?

PCB: Fantástica! O nível é altíssimo aqui, mas as oportunidades para desenvolvimento estão todas disponíveis. Eu hoje vôo um DR-107 One Design que é emprestado de um grande amigo meu (que conheci através do Eduardo Fabiano! Longa história…) e adoro! Já competi no  US Nationals e pretendo continuar evoluindo e disputar a Avançada ainda esse ano. A acrobacia aqui é um hobby pra muita gente, então os pilotos novos são todos sempre muito bem-vindos. É sempre divertido ir aos campeonatos! Mas a competição é acirrada.

MR: Qual foi o momento mais inesquecível da sua carreira acrobática?

PCB: Competir no US Nationals em Oshkosh. Se parar pra pensar quantos já voaram e ainda voam naquele mesmo box? Leo Loundenslager, Jimmy Franklin, Charlie Hillard? Ainda voam Patty Wagstaff, Gene Soucy. É um local sagrado pra qualquer pessoa que sejã fã da acrobacia. Poder voar lá com meu One Designzinho foi muito, muito especial!

MR: Você está na acrobacia de demonstração e de competição. Existe uma correlação entre os dois tipos de prática?

PCB: Muita correlação! Na minha opinião, pra ter longevidade da acrobacia de demonstração, é necessário experiência na acrobacia de competição. Competindo é que se aprende a voar acrobacia, pra depois poder ser um bom piloto de demonstração. Segurança sempre em primeiro lugar, precisão, comprometimento, são todos valores que se aprende na acrobacia de competição. Pra mim, é um passo obrigatório.

MR: O ICAS existe nos EUA há mais de 50 anos e movimenta uma verdadeira indústria de shows aéreos. Recentemente foi fundado o ICAS Brasil e ele corrobora com os mesmos preceitos do ICAS original. Qual futuro você consegue vislumbrar para a acrobacia aérea brasileira levando em consideração a criação dessa nova entidade?

PCB: A acrobacia no Brasil sempre precisou de liderança e organização. Sem isso, não há perspectiva de crescimento! No meu curto tempo de vida, passei por um período bom no Brasil e depois uma fase muito turbulenta. Hoje observando de fora eu fico MUITO feliz de ver o movimento que existe de evoluir o nosso cenário. O Brasil hoje tem na ativa excelentes pilotos de nível mundial como o Gúnar Armin, Francis Barros e o Marcio Oliveira. Muita gente crescendo nas categorias – Yanco, o Cris Oliveira. Adoro assistir na Internet os vídeos do Faco voando o CAP-10. Temos também uma cultura aeronáutica riquíssima, e muitas oportunidades pra acrobacia de demonstração. Com liderança e organização, sempre mantendo a segurança em primeiro lugar, temos tudo pra ser bem-sucedidos!

MR: Tem algum sonho a realizar ainda?

PCB: Muitos! Disputar um mundial de acrobacia é o próximo!

MR: Tendo tido contato com a ACRO novamente, o que espera dela nessa nova era?

PCB: Consistência e coerência! Espero que seja um movimento DURADOURO e forte, em prol do desenvolvimento da cultura da acrobacia aérea do nosso país. Que se invista na base! A cultura começa no ensino básico e o aviador carregará o que aprendeu consigo pro resto da vida. Espero que a ACRO incentive uma cultura de união entre os praticantes e se isso acontecer, mais e mais campeonatos surgirão e mais e mais shows aéreos também vão acontecer. Segurança em primeiro lugar! É preciso reduzir ao máximo possível o número de acidentes e incidentes relacionados à acrobacia, e recuperar a confiança das autoridades e do público.

MR: Qual recado você daria a um(a) piloto que deseja ingressar para a acrobacia?

PCB: Invista em treinamento! Não economize quando escolher um instrutor. Aprenda com os melhores que puder encontrar. Pratique muito, e pratique ALTO. “Altitude is life, speed is life insurance. Make sure you have both.”  (Altitude é vida, velocidade é seguro de vida. Faça questão de ter ambos). Utilize o melhor equipamento que encontrar; qualquer avião acrobático requer mais atenção e carinho que um avião não-acrobático.

 

Agradeço imensamente a excelente conversa com Pablo e sua disponibilidade em nos compartilhar um pouco de sua história. Que Pablo tenha muito sucesso tanto na equipe quanto nos voos pelo mundo afora!

Continue ligado na ACRO que as novidades não param por aí! A nova série ACRO Entrevista seguirá com muitas outras importantes personalidades que passaram pela ACRO ou que são ícones da acrobacia mundial!

Saudações acrobáticas!

ACRO_Atual

Por Murilo Rovina